quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

DUBAI






Dubai é a Disney World do mundo árabe. Abu Dhabi, do lado, já é muito mais ortodoxa. E a Arábia Saudita, dizem, em relação aos Emirados, é ainda muito mais dura. Dubai é a ponta pop do iceberg árabe. Uma espécie de zona mista entre o islã e a cultura ocidental e não muçulmana. É lá que vive a maioria dos europeus e americanos que trabalham e fazem negócios na região. Há bairros internacionais e hospitais ligados a determinadas nacionalidades. Dubai é também um enorme shopping center. A língua internacional ali é o dinheiro. É a grana que aproxima e conecta todas as peças naquele tabuleiro. Dubai é também um enorme canteiro de obras – construções monumentais. Dificilmente há outro lugar no mundo mais impressionante em termos de engenharia civil. Dubai é uma espécie de meca para qualquer estudante de arquitetura. A impressão que se tem é que não se ergue edifício por lá sem se chamar os melhores projetistas do mundo e dar-lhes a missão que produzirem ali o melhor prédio de suas carreiras. Ou tirarem de suas gavetas aquelas ideias mirabolantes que foram barradas em outros lugares.

O Emirados só podem funcionar com o dinheiro dos Sheiks. A indústria imobiliária, que é estonteante, com suas maquetes maravilhosas a céu aberto, e que não para de florescer, parece transformar areia em ouro num ritmo muito mais acelerado do que a demanda pode absorver, do que a capacidade real de vender tudo aquilo apropriadamente. De fato, à noite se percebe que aqueles escândalos arquitetônicos parecem estar muito mais vazios do que seria recomendado. Pouco tempo antes da nossa malfadada invasão colorada, diga-se, Dubai faliu. Teve que pedir dinheiro aos primos de Abu Dhabi. Sim, isto é um dos aspectos mais interessantes dos Emirados Árabes. Você chega em Dubai e depois de ficar totalmente embriagado com aquela ostentação quase vulgar de riquezas, das construções da mil e uma noites aos shopping centers com pistas de gelo para esquiar no meio do deserto, enfim, quando já está enfarado com tudo aquilo, aí descobre que quem tem dinheiro mesmo é o Sheik de Abu Dhabi, e não o de Dubai. Abu Dhabi é a capital dos emirados e detém 90% do petróleo do país. Dubai é só o hall de entrada, a vitrine, os jardins onde os visitantes são recebidos.

Os Emirados funcionam, como qualquer outra sociedade rica do mundo, à base da mão de obra barata vinda de outros países mais pobres. Os árabes são a elite. E parecem, todos, ter direito a uma Mercedes, a uma BMW, a um Porsche. O desfile de carros com um cara de turbante branco e óculos escuros ou uma moça de burka preta ao volante é impressionante. Os americanos e europeus, ainda que peguem o metrô, são trabalhadores qualificados, do tipo que vai trabalhar de gravata ou tailleur num escritório todo dia. Então o trabalho indigesto, que ninguém quer fazer, as profissões não especializadas e não tão bem pagas vão para a turma que emigra da Índia, do Paquistão, das Filipinas, de Bangladesh, do Sri Lanka. Os escuros e os pardos do mundo, os chicanos da Ásia.

A sociedade árabe é machocêntrica. O homem manda, tem precedência, a mulher obedece e vem atrás – e isso não se discute. A burka é uma embalagem para que o vizinho não possa apreciar a sua propriedade. No entanto, não imagine os homens árabes como beduínos que mal trocam a roupa de baixo. Ao menos em Dubai, o que se vê é um homem árabe altamente vaidoso, que faz questão de se cuidar e que pratica o grooming – a cosmética masculina – em níveis europeus que nós, latinos, ainda vamos demorar uma ou duas gerações para equiparar. Todo árabe parece ser um metrossexual por baixo do turbante e da túnica branca. Todos tem barbas de dois dias – um item de respeitabilidade e de demarcação da testosterona –, tratadas a pão de ló. As roupas são impecáveis – incluindo aí a limpeza e a goma, as grifes, as chinelas de couro (as mais chiques do mundo), os óculos e relógios caros. As mulheres também, apesar de totalmente cobertas, parecem fazer a festa quando o assunto é moda ou beleza ou cosmética ou cabelo. Os anúncios nos shoppings são os mesmos que se vê no Ocidente. Nenhuma restrição. E já há um bocado de meninas árabes que não usam a burka. (Provavelmente porque não casaram ainda e, portanto, são apenas propriedade de um pai e não de um marido.) E todo mundo é absolutamente bem perfumado.

No aeroporto, indo embora, na fila da imigração, uma jovem família árabe à minha frente enfrentava um impasse. Por lá, homens e mulheres não se tocam fora da família, em hipótese alguma. Mais do que isso – outro homem não pode ver o rosto da sua mulher. E a moça precisava mostrar o rosto para a conferência do passaporte. Uma oficial da imigração teve que ser chamada de outro setor para proceder a verificação. E quando a moça levantou a burca, num ângulo mínimo que permitia entrever o seu rosto, eu me senti como se a estivesse vendo nua. Como se fosse um menino de uma era vitoriana que estivesse espiando furtivamente, por um átimo, uma entrecoxa ou um peito que uma mãe fosse dar a um filho.

Dentre todas as atrações de Dubai, do mercado do ouro ao mercado de especiarias, das mesquitas em que mal se pode entrar ao condomínio montado sobre um arquipélago artificial erigido no meio do mar, destaca-se (literalmente) o Burj Kalifa, o maior edifício do mundo. Se entendi bem, a ficha técnica é essa: o custo do metro quadrado, caso você queira abrir um escritório lá, é de 90 000 dólares. O elevador, que você paga para usar, faz 10 metros por segundo, ou 60 km por hora, e vai em dois minutos do térreo ao 124º andar. O elevador não tem vista para fora para não causar vertigem nem desmaios nos passageiros. (Especialmente na hora de descer.) Outros dois pontos interessantíssimos que chocam o visitante incauto por lá: a incrível poeira de Dubai. Ela é uma presença física, palpável, constante. O ar de Dubai é amarelo. O oxigênio vira pó na terra onde não chove nunca. E, acredite, o sol do deserto não queima. Ao menos não o sol de dezembro, de inverno, em Dubai. Você passa o dia com o sol no coco e não fica sequer vermelho. Só tem que hidratar bem, tomar muita água. Senão vira um cream cracker rapidinho. Tudo que é líquido evapora em segundos no deserto.

Por fim, me pergunto: apesar de todo o artificialismo de Dubai, dos prédios megalômanos e vazios à falsa economia dependente dos petrodólares, do parque de diversões a céu aberto para turistas endinheirados e sozinhos ao consumismo oco e sem alma dos shoppings, será que não emerge daí, apesar de tudo isso, uma boa solução de diálogo e de ponto médio cultural e religioso entre Ocidente e Oriente? Será que não há aí um modelo de respeito à diversidade, de diálogo entre o Cristianismo e o Islã e o Judaísmo? O turismo, já se disse isso, é uma poderosa ferramenta de aproximação entre os povos e de exercício da tolerância e da curiosidade mútua. Dubai parece ser uma boa experiência nesse sentido. É claro que com dinheiro todos os ventos sopram a favor. Mas esse dinheiro também poderia estar sendo gasto com armamentos e munição. É muito melhor enterrar grana no mar, com um conjunto pirado de ilhas artificiais na forma do mapa mundi, que serão posteriormente vendidas a bilionários do mundo inteiro, do que enterrá-la em mísseis e em tanques. É muito melhor a relação de Dubai com os colorados que a invadiram, com os gringos da serra gaúcha e com os estancieiros do cone sul que tomaram as suas ruas, do que as relações entre, sei lá, Israel e Jordânia. Ou Índia e Paquistão. Isso eu posso garantir.

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